segunda-feira, 31 de maio de 2010

Manifesto Queers Insurrecional!

Queer começou a ser usado como um insulto às pessoas de gênero e sexualidade diferente (seu significado em inglês é “incomum”), mas rapidamente se converteu num termo para expressar nossas identidades. A maioria das pessoas entendem queer como sinônimo de GLBT. Este entendimento falha em analisar nossa experiência como pessoas queer. Para nós, queer não é uma área estabelecida, queer não é uma identidade que faz parte de uma lista de categorias sociais corretas e aceitas. Queer é uma identidade definida contra a dominação hetero-monogâmica-patriarcal-branca e também uma identidade que se aproxima com aquelas pessoas que estão marginalizadas e oprimidas. Queer representa nossas sexualidades e gêneros, mas também muito mais. Queer é a resistência ao regime no "normal".

Como queers nós entendemos a normalidade. A normalidade é a tirania da nossa condição. A normalidade é violentamente imposta a cada dia, a cada hora sobre nós. A normalidade é a miséria e a opressão. A normalidade é o Estado, é o capitalismo. É o colonialismo e o império. É a brutalidade. É violação. A normalidade é cada forma em que limitamos nossa identidade ou aprendemos a odiar nossos corpos.

Nós falamos de guerra social. Nós falamos disto já que uma pura análise das classes sociais não nos bastam. Que significa uma análise marxista da economia mundial a um sobrevivente de um espancamento? Aos trabalhadore/as sexuais? A um sem teto ou a jovens fugidos de suas casas? Como pode uma simples análise de classe ser a base de uma revolução, que promete libertar a aquele/as de nós que estamos experimentando e viajando mais além dos gêneros e sexualidade que nos são atribuídos? O proletariado como um sujeito revolucionário marginaliza a quem suas vidas não encaixam no modelo do trabalhador heterossexual.

Lênin, Marx e Proudhon nunca jogaram [viveram] como nós.

Nós queremos converter a dominação em ruínas. Esta luta que inabita cada revolução social é o que conhecemos como guerra social. É o processo e a condição do conflito com a normalidade.

Neste discurso queer, estamos falando da luta contra a normalidade. Para nós queer significa guerra social. E quando falamos de queer como um conflito contra toda a dominação, o falamos seriamente.

O normal, o heterossexual, a família comum, estes exemplos sempre foram construídos em oposição a nós. Heterossexual não é queer. Saudável não tem HIV. Homem não é mulher. Os discursos da heterossexualidade, o patriarcado, o capitalismo se reproduzem a si mesmos como um modelo de poder. Para o resto de nós só há morte.

Nas ruas um "maricas" é espancado porque sua representação de gênero é muito feminina. A um pobre homem transexual que não consegue o dinheiro para seus hormônios salva vidas. Trabalhadore/as sexuais são assassinados por seus clientes. Um genderqueer é violada porque necessitava "ter sexo heterossexual". Mulheres lésbicas são encarceradas por defender-se contra homens heterossexuais que as agridem. A polícia nos brutaliza nas ruas.

Queers experimentamos, diretamente com nossos corpos a violência e a dominação deste mundo. Temos nossos corpos e desejos roubados de nós.

A perspectiva queer dentro do mundo heteronormativo é a que nos permite criticar e atacar o aparato capitalista. Nós podemos analisar as formas em que a medicina, a igreja, o Estado, o matrimônio, os meios de comunicação, as fronteiras, o exército e a polícia são usados para nos controlar e destruir. E ainda mais importante, podemos usar estes casos para articular um criticismo coeso de todas as formas em que somos alienado/as e dominado/as.

A posição queer é uma posição onde se ataca o normal. E é desde esta posição que a história dos queers organizados tem tomado sua forma. O/as mais marginalizados - pessoas trans, pessoas de cor, trabalhadore/as sexuais - sempre tem sido a base das chamas da resistência militante queer. Esta resistência tem sido acompanhada pela análise radical que afirma que a liberação queer está amarrada com a aniquilação do Estado e do capitalismo.

Se a história prova algo, é que o capitalismo tem uma tendência de pacificar os movimentos sociais. Isto, trabalha simplesmente. Um grupo ganha privilégio e poder dentro do movimento e pouco depois, traem seus companheiro/as. Alguns anos depois dos distúrbios de Stonewall, homens gays brancos e de classe média marginalizaram toda a gente que havia feito seu movimento possível e abandonaram a revolução.

Antes, se queer era estar em conflito direto com as forças de dominação. Agora nos tocou nos enfrentarmos ao estancamento total e a esterilidade. Como sempre, o capital transformou trans que atiravam pedras nas ruas em políticos e ativistas bem vestidos. Há gays republicanos e democráticos. Há países onde até há bebidas energéticas "gay" e canais de televisão "queer" que fazem a guerra mental, com o corpo e a autoestima da juventude. O estabelecimento político "GLBT" converteu-se numa força de assimilação, gentrificação e do poder estatal e capital. A identidade gay se converteu em um produto, uma comodidade e um aparato que funciona para retirar-se da luta contra toda a dominação.

Agora já não criticam nem o matrimônio, nem o exército, nem o capitalismo, nem ao Estado. Há campanhas para a assimilação queer dentro de cada uma. Suas políticas apóiam todas as instituições que reinformam a heteronomatividade, em vez de buscar a aniquilação daquelas. "Gays podem matar pessoas pobres da mesma forma que pessoas heterossexuais!" Gays podem ter reinos de capital e poder igual as pessoas heterossexuais!" "Somos iguais a vocês!"

Assimilacionistas buscam nada menos que construir o homossexual como o normal - rico, monogâmico, carros luxuosos, residências privadas. Esta construção, claramente reproduz a estabilidade da heterossexualidade, o patriarcado, o binário de gênero, o capitalismo.

Se nós realmente queremos destruir esta normalidade, necessitamos tomar uma posição firme. Não necessitamos da inclusão ao matrimônio, nem do exército, nem do Estado. Temos que destruí-los. Não mais político/as, nem chefes, nem policiais gays. Necessitamos separar as políticas de assimilação e as políticas de libertação.

Necessitamos reencontrar nossa sucessão como queer anarquistas descontrolado/as. Necessitamos destruir estas construções da normalidade, e ao invés, criar posições baseadas em nossa contrariedade a esta normalidade, uma alternativa capaz de desmantelá-la. Necessitamos usar esta posição para instigar rupturas, não só destas políticas de assimilação, mas do capitalismo em si mesmo.

Nossos corpos nasceram em conflito com a ordem social, temos que aprofundar este conflito e fazer com que se espalhe.

Devemos criar um espaço onde é possível desejar. Este espaço, obviamente, requer conflito com a ordem social. Para desejar, em uma sociedade estruturada para confinar o desejo, é uma tensão que vivemos diariamente.

Este terreno, que nasce na ruptura, deve desafiar a opressão em sua integridade. Isto significa a negação total ao mundo. Devemos nos voltar os corpos em rebeldia. Nós podemos apreender a fortaleza de nosso/as corpos em rebeldia para criar o espaço para nosso/as desejos. No desejo encontraremos o poder para destruir o que nos destrói. Temos que estar em conflito com o regime do normal.

Este artigo é uma tradução do panfleto "Towards the queerest insurrection” e o link está em:

http://zinelibrary.info/files/Queerest%20Final_0.pdf

Páginas que relatam a insurreição queer mundial:

http://bashbacknews.wordpress.com/

http://www.blackandpink.org/

http://www.qzap.org/

http://www.lespantheresroses.org/

fonte - agência de notícias anarquistas-ana

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Delicadeza

Por MARIA RITA KEHL - O Estado de S.Paulo

Se eu fosse Deus e se eu existisse, executaria em São Paulo uma prosaica providência administrativa. Tombaria a cidade inteira pelos próximos dez anos: como está, fica. Não se derruba mais nada, não se constrói mais nada. Tratem de melhorar a cidade que já existe: monstruosa, desigual, mal planejada e mal cuidada. Se é para movimentar dinheiro, invistam-se nos espaços públicos: ruas, praças, jardins, calçadas, iluminação, centros de lazer, prevenção contra enchentes - tudo o que faz, de um amontoado de moradias, algo parecido com a magnífica invenção humana chamada cidade. Investir em urbanidade também dá retorno financeiro.

Vista assim do alto, do ponto de vista celeste, São Paulo mais parece uma cidade bombardeada. Imensas crateras em todos os bairros, quarteirões de casas derrubadas, populações pobres jogadas de lá pra cá à procura de lugar para criar novos campos de refugiados de onde serão expulsas pouco tempo depois. Inundações, trânsito bloqueado, gente desesperada presa dentro dos carros parados, gente enlouquecendo pela dificuldade de tocar o dia a dia. Gente que sente no corpo e na alma os efeitos de viver sob uma cúpula negra de poluição que só se vê de cima. Parece uma guerra, mas é só o capitalismo: bombando, enriquecendo alguns e empobrecendo o resto. Enquanto a cidade se torna infernal, se oferece aos que podem pagar o lenitivo de viver numa torre, bem acima do chão, de onde se finge escapar da realidade urbana. O uso novo-rico da palavra torre substituiu as obsoletas "edifício" e "prédio", além da simpática e infantil "arranha-céu". Nas histórias de fadas, a torre era o lugar onde se encarceravam as princesas. Privilégio em São Paulo é viver encerrado numa torre.

Mas como parar todos os negócios imobiliários da cidade? E a economia? E a geração de empregos? Digamos que, se eu fosse Deus, daria um jeito nisso. Se uma prefeitura rica como a nossa, em vez de se tornar cliente de um setor poderoso, investisse os impostos que recebe em outras atividades, em pouco tempo a cidade recuperaria sua pujança. Digamos que seja possível planejar um pouco a economia municipal. Só assim deixaríamos de ser reféns de quem já detém poder econômico. Dez anos são menos que uma fração de segundo pra quem vê o tempo do ponto de vista da eternidade. Mas quem sabe, tempo suficiente para que a cidade pudesse eleger uma nova prefeitura e uma câmara dos vereadores livres de compromissos com o poderoso Secovi, maior sindicato de comércio imobiliário da América Latina.

Mas - em nome de que Deus faria uma coisa dessas? Em nome de que impediria a cidade de, digamos - "crescer"? Não, Deus não precisaria ser socialista. Nem urbanista. Bastaria agir em nome de um valor que está presente em todas as perspectivas sagradas, religiosas ou simplesmente humanistas: em nome da delicadeza. Bastaria considerar que as cidades não existem para impressionar e oprimir as pessoas, mas para ampliar a esfera da liberdade, das possibilidades e daquilo que se costuma chamar de urbanidade.

Nesse ponto convido o leitor a trocar a vista aérea de São Paulo pelo ponto de vista pedestre. Basta descer um pouco do carro e passear a esmo pelas ruas. Se achar a proposta muito mixuruca, finja que é Baudelaire flanando por Paris no século 19, tentando captar o que sobrou da antiga cidade depois da monumental reforma executada por Haussmann a mando de Napoleão III. Ou finja que você é o João do Rio, cronista da capital brasileira reformada por Pereira Passos. A diferença, claro, é que essas duas enormes destruições/reconstruções urbanas foram planejadas visando a modernizar o espaço público, enquanto hoje a construção civil compra o poder público e faz literalmente o que quer em nome do interesse das pessoas, isto é, do mercado. Parece que o mercado é igual à soma das vontades das pessoas. Não é. O que chamamos mercado é um dispositivo formado por poucos, porém grandes interesses, que se impõe às pessoas de modo a determinar o que elas devem querer.

O que será de uma cidade que destrói todas as suas reservas de delicadeza, de graça, de modéstia? Caminhe um pouco pelas ruas de seu bairro em busca dos cantinhos que ainda não foram devastados por alguma obra grandiosa e brega. O que será de uma cidade sem varandas? Sem janelas dando para a rua - e o gato que espia pelo vidro de uma delas? O que será de nosso convívio diário numa cidade sem o pequeno comércio da rua, responsável pelo território coletivo onde as pessoas aos poucos se conhecem, se cumprimentam, conversam? Uma cidade sem zonas de familiaridade? O que será de uma cidade sem as vilas com casas antigas onde o pedestre entra sem passar por uma guarita e encontra um micro-oásis de sombra e silêncio? Sem a minúscula pracinha que sobrou numa esquina onde se esqueceram de construir outra coisa? Procure os lugares em que ainda seja possível o encontro entre o público e o privado, o íntimo e o estranho, o desafiante e o acolhedor. O que será de uma cidade que é pura arrogância, exibicionismo e eficiência? O que será de nós, moradores de uma cidade que despreza a vida urbana?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Simpósio

QUEM TEME AS MULHERES?

O Instituto Cervantes apresenta seu simpósio internacional "Quem teme as mulheres?", com a curadoria de Guita Grin Debert. As palestras/encontros acontecerão ao longo do mês de junho, nas terças-feiras, das 19h às 21h, sempre no Espaço Cultural do Instituto, Av. Paulista, 2439.

As últimas décadas foram marcadas por mudanças radicais na experiência das mulheres vivendo em diferentes contextos e condições. Quais são os significados destas transformações? Que tipos de reações elas provocam na nossa sociedade? Como redefinem os imperativos de masculino e de feminino?

O objetivo deste simpósio internacional é discutir essas questões, contrastando atitudes, situações e empreendimentos políticos, especialmente no contexto da cultura brasileira e da cultura hispânica. Transições, saltos ou abismos que se produziram em nossas sociedades nos últimos cem anos causando uma extraordinária redistribuição das funções sociais que tratamos de identificar e até analisar por meio de todos os suportes: cinema, vídeo, pensamento, literatura e artes visuais.

O simpósio faz parte do programa "Quem teme as mulheres?", que o Instituto Cervantes desenvolve durante o ano de 2010 dando continuidade ao que já foi oferecido, como a exposição Subjetivo Feminino, que apresentou fotografias de Cláudia Jaguaribe, Erica Bohm, Flávia Junqueira e Nicola Constantino. O MIS já apresentou o ciclo de cinema Mulheres a frente atrás das câmeras. Durante o simpósio o Espaço Cultural do Instituto Cervantes acolherá a exposição Um olhar caleidoscópico, de Rochelle Costi. Nesta exposição a artista explora, com humor e ironia, até mesmo sua própria identidade corporal, subvertendo os limites entre a obra de arte e o espaço da realidade cotidiana.

1/6 – As mulheres no mundo trabalho: vicissitudes na era da flexibilidade.

Judith Astelarra Bonomi. Socióloga, professora titular da Universidad Autonoma de Barcelona (Espanha).

Helena Hirata. Socióloga brasileira, diretora de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), pesquisadora visitante na UNICAMP e na USP.

Como vem sendo definida a relação entre vida profissional e vida familiar? Quais são as carreiras em que a presença da mulher é marcante? Pode-se dizer que há um feminização do mundo do trabalho? É possível identificar novas formas de segregação ocupacional? A comparação de contextos europeus, asiáticos e latino-americanos oferece um quadro instigante das transformações no sentido do trabalho e das carreiras ocupacionais para homens e mulheres de diferentes gerações no mundo contemporâneo.

8/6 – Masculinidade/ feminilidade: maternidade, sexualidade e as novas etapas da vida adulta.

Dora Barrancos. Historiadora da Universidade de Buenos Aires, diretora do Instituto Interdisciplinario de Estudios de Gênero.

Márcia Tiburi. Filósofa da Universidade Mackenzie é colunista da Revista Cult e participante do programa Saia Justa do canal GNT.

Os avanços tecnológicos apontam a possibilidade da gravidez em idades cada vez mais avançadas, mas “gravidez na adolescência” se transformou num dos grandes problemas sociais. É, também, cada vez maior o número de filhos que mesmo em idade adulta continuam morando na casa dos pais. A imagem das mulheres de 40 anos não é mais a de seres condenados à passividade própria de quem inicia a marcha irreversível da velhice. Como essas mudanças no curso da vida criam novos mercados de consumo, redesenham a oferta de bens e serviços e redefinem masculinidades e feminilidades?

22/6 – Presença e sensibilidade da mulher na arte atual: literatura, artes plásticas e teatro.

Adelina Sánchez Espinosa. Crítica Literária da Universidad de Granada e coordenadora do GEMMA (Erasmus Mundus Master´s Degree in Women’s and Gender Studies).

Regina Silveira. Artista e docente da Escola de Comunicação e Arte (ECA) da Universidade de São Paulo.

Até o século XIX era rara a presença das mulheres no mundo das artes. Qual é o significado da presença cada vez mais ativa de mulheres nesse território? Seria o mercado das artes menos segregacionista do que outras esferas profissionais e, portanto, mais aberto à exposição de obras e a conquista da fama e do sucesso pelas mulheres? A representação artística do feminino pode ganhar contornos distintos nesse novo contexto? Em que medida as clivagens de gênero criam novas concepções sobre as mulheres, suas tarefas e seu destino?

29/6 – Gênero e sexualidade

Dolores Juliano. Antropóloga da Faculdade de Geografia e História da Universidad de Barcelona (1984-2001) e vice-presidente da LICIT, Línea de investigación y cooperación con inmigrantes trabajadoras sexuales (2001).

Maria Filomena Gregori. Antropóloga da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pesquisadora do Pagu-Núcleo de Estudos de Gênero da UNICAMP e do CNPq.

Prostituição e pornografia são temas em debate que dividem os diferentes movimentos e teorias feministas. As dimensões variadas do mercado e da demanda por sexo e sensualidade ganham significados distintos num contexto em que o tráfico internacional de pessoas tem ocupado um espaço cada vez maior nas agendas nacionais e internacionais. É possível falar numa sexualidade politicamente correta? Num contexto em que a indústria do sexo se amplia é importante saber quem são seus usuários e qual o caráter dos bens que estão sendo oferecidos.

Serviço:

Auditório do Instituto Cervantes

1º, 08, 22 e 29 de junho, das 19h às 21h

Entrada gratuita

Informações à Imprensa

Instituto Cervantes de São Paulo

Juliana Frutuoso

Tel: 3897-9609

E-mails: cultsao2@cervantes. es

quarta-feira, 12 de maio de 2010

FÁBRICA DE SONHOS: 100 ANOS DE CINEMA E PSICANÁLISE

Na cinemateca
11 de maio a 12 de setembro

Em comemoração aos 100 anos da IPA – International Psychoanalitical Association, fundada em 1910 por Sigmund Freud, a Cinemateca Brasileira, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicanálise, apresenta uma programação extensiva de filmes, sessões comentadas e debates que buscam evidenciar relações entre o cinema e a psicanálise.

A psicanálise, ao conferir novas possibilidades interpretativas ao sonhos e às manifestações do inconsciente, abasteceu o cinema de um imenso manancial teórico que adensou as narrativas cinematográficas. Estas, por sua vez, passaram a fornecer à psicanálise modelos de comportamento e de caráter que servem de guias e parâmetros para analogias com casos clínicos. A relação entre o cinema e a psicanálise, portanto, é uma via de mão dupla, na qual ambos se influenciam, espelham-se e alimentam-se.

Esta é a idéia por trás da programação que se inicia este mês na Cinemateca Brasileira, com a realização de uma mostra de filmes com algumas sessões comentadas por psicanalistas e dois debates, e que segue com a realização de sessões de cinema seguidas de debates com especialistas e intelectuais, sempre aos domingos, às 19h00, até o dia 5 de setembro – quando uma segunda mostra de filmes, centrada em produções latino-americanas, encerra as comemorações. Nesta primeira etapa, o destaque fica com a imensa variedade de gêneros, estilos, autores e épocas da produção cinematográfica contemplada.
+ consulte a programação

terça-feira, 4 de maio de 2010

Tortura, por que não?

Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo

O motoboy Eduardo Pinheiro dos Santos nasceu um ano depois da promulgação da lei da Anistia no Brasil, de 1979. Aos 30 anos, talvez sem conhecer o fato de que aqui, a redemocratização custou à sociedade o preço do perdão aos agentes do Estado que torturaram, assassinaram e fizeram desaparecer os corpos de opositores da ditadura, Pinheiro foi espancado seguidas vezes, até a morte, por um grupo de 12 policiais militares com os quais teve o azar de se desentender a respeito do singelo furto de uma bicicleta. Treze dias depois do crime, a mãe do rapaz recebeu um pedido de desculpas assinado pelo comandante-geral da PM. Disse então aos jornais que perdoa os assassinos de seu filho. Perdoa antes do julgamento. Perdoa porque tem bom coração. O assassinato de Pinheiro é mais uma prova trágica de que os crimes silenciados ao longo da história de um país tendem a se repetir. Em infeliz conluio com a passividade, perdão, bondade, geral.

Encararemos os fatos: a sociedade brasileira não está nem aí para a tortura cometida no País, tanto faz se no passado ou no presente. Pouca gente se manifestou a favor da iniciativa das famílias Teles e Merlino, que tentam condenar o coronel Ustra, reconhecido torturador de seus familiares e de outros opositores do regime militar. Em 2008, quando o ministro da Justiça Tarso Genro e o secretário de Direitos Humanos Paulo Vannuchi propuseram que se reabrisse no Brasil o debate a respeito da (não) punição aos agentes da repressão que torturaram prisioneiros durante a ditadura, as cartas de leitores nos principais jornais do País foram, na maioria, assustadoras: os que queriam apurar os crimes foram acusados de ressentidos, vingativos, passadistas. A culpa pela ferocidade da repressão recaiu sobre as vítimas. A retórica autoritária ressurgiu com a força do retorno do recalcado: quem não deve não teme; quem tomou, mereceu, etc. A depender de alguns compatriotas, estaria instaurada a punição preventiva no País. Julgamento sumário e pena de morte para quem, no futuro, faria do Brasil um país comunista. Faltou completar a apologia dos crimes de Estado dizendo que os torturadores eram bravos agentes da Lei em defesa da - democracia. Replico os argumentos de civis, leitores de jornais. A reação militar, é claro, foi ainda pior. "Que medo vocês (eles) têm de nós."

No dia em que escrevo, o ministro Eros Graus votou contra a proposta da OAB, de revisão da Lei da Anistia no que toca à impunidade dos torturadores. Para o relator do STF, a lei não deve ser revista. Os torturadores não serão julgados. O argumento de que a nossa anistia foi "bilateral" omite a grotesca desproporção entre as forças que lutavam contra a ditadura (inclusive os que escolheram a via da luta armada) e o aparato repressivo dos governos militares. Os prisioneiros torturados não foram mortos em combate. O ministro, assim como a Advocacia Geral da União e os principais candidatos à Presidência da República sabem que a tortura é crime contra a humanidade, não anistiável pela nossa lei de 1979. Mas somos um povo tão bom. Não levamos as coisas a ferro e fogo como nossos vizinhos argentinos, chilenos, uruguaios. Fomos o único país, entre as ferozes ditaduras latino-americanas dos anos 60 e 70, que não julgou seus generais nem seus torturadores. Aqui morrem todos de pijamas em apartamentos de frente para o mar, com a consciência do dever cumprido. A pesquisadora norte-americana Kathrin Sikking revelou que no Brasil, à diferença de outros países da América latina, a polícia mata mais hoje, em plena democracia, do que no período militar. Mata porque pode matar. Mata porque nós continuamos a dizer tudo bem.

Pouca gente se dá conta de que a tortura consentida, por baixo do pano, durante a ditadura militar é a mesma a que assistimos hoje, passivos e horrorizados. Doença grave, doença crônica contra a qual a democracia só conseguiu imunizar os filhos da classe média e alta, nunca os filhos dos pobres. Um traço muito persistente de nossa cultura, dizem os conformados. Preço a pagar pelas vantagens da cordialidade brasileira. "Sabe, no fundo eu sou um sentimental (...). Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar/ Meu coração fecha os olhos e sinceramente, chora." (Chico Buarque e Ruy Guerra).

Pouca gente parece perceber que a violência policial prosseguiu e cresceu no País porque nós consentimos - desde que só vitime os sem-cidadania, digo: os pobres. O Brasil é passadista, sim. Não por culpa dos poucos que ainda lutam para terminar de vez com as mazelas herdadas de 21 anos de ditadura militar. É passadista porque teme romper com seu passado. A complacência e o descaso com a política nos impedem de seguir frente. Em frente. Livres das irregularidades, dos abusos e da conivência silenciosa com a parcela ilegal e criminosa que ainda toleramos, dentro do nosso Estado frouxamente democratizado.