A respeito das metamorfoses e dos bons combates na psicologia e na política.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Repensando conceitos para evitar preconceitos.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Pra roda da vida em 2012!
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Não se esconda.
sábado, 1 de outubro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
O lado que você escolher
Diálogo entre Yoda e Anakin Skywalker, em Star Wars Episódio III – A vingança dos Sith:
– Essas visões que você tem…
– São visões de dor… sofrimento… morte.
– De você falando está, ou de alguém que conhece?
– De alguém.
– Próximo a você?
– Sim.
– Cuidadoso deve ser quando sente o futuro, Anakin. O medo da perda é um caminho para o Lado Negro.
– Não deixarei que essas visões se tornem realidade.
– Morte é uma parte natural da vida. Alegre-se por aqueles que ao seu redor na Força se transformam. Lamentar, jamais. Sentir falta, jamais. Laços emocionais levam ao ciúme. Na sombra da cobiça se transformam.
– O que devo fazer, Mestre Yoda?
– Treine a si próprio para deixar ir tudo o que você tem medo de perder.
sábado, 23 de julho de 2011
SOBRE O CAMINHO DO GUERREIRO
O objetivo máximo de um guerreiro é atingir a totalidade do seu ser e isso só é possível quando ele agir impecavelmente. Ser um guerreiro não é apenas querer sê-lo, é antes uma luta interminável que continua até o último minuto de vida.
Um guerreiro está nas mãos do poder e sua única liberdade é escolher uma vida impecável. Não há meio de forjar um triunfo, uma derrota. Sua razão pode querer que ele fracasse completamente, a fim de apagar a totalidade de seu ser. Mas existe uma contra medida que não permitirá que ele declare uma vitória ou derrota falsa. Se ele acha que pode fugir para o abrigo do fracasso está maluco. O seu corpo montará guarda e não o deixará seguir tais caminhos.
Um guerreiro não pode ser desamparado, nem confuso e nem assustado em nenhuma circunstância. Para um guerreiro só há tempo para sua impecabilidade; tudo mais esgota seu poder, a impecabilidade renova-o.
A impecabilidade é fazer o máximo em tudo o que for empreendido. A chave para todos esses assuntos de impecabilidade é o sentido de não ter tempo. Via de regra, sentir e agir como um ser moral que tem todo o tempo do mundo é não ser impecável.
A auto confiança de um guerreiro não é a mesma do homem comum. O homem comum busca a certeza aos olhos do espectador e chama isso confiança. O guerreiro busca a impecabilidade a seus próprios olhos e chama isso humildade. O homem comum está agarrado a seus semelhantes, enquanto o guerreiro só se agarra a si mesmo. A diferença entre os dois é notável. A confiança em si, significa saber algo com certeza; a humildade significa ser impecável em suas ações e sentimentos.
Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for e o aceita na mais total humildade. Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas um desafio vivo, enquanto que o homem comum aceita tudo como uma benção ou uma praga.
É preciso para cada um de nós, compreender esse ponto e vive-lo plenamente. A humildade de um guerreiro não é a humildade de um mendigo; o guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que ninguém curve a cabeça para ele. O mendigo ao contrário, prosta-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem ele considera seu superior, mas ao mesmo tempo exige que alguém que lhe seja inferior lhe lamba as botas.
Um guerreiro vai se deparar com toda espécie de obstáculo e desapontamentos para o obrigar a abandonar a busca da totalidade de si. O antídoto é agir persistentemente, sem reservas, não deixando que seus velhos hábitos e rotinas o atrapalhem. Para ter êxito em alguma coisa ou sucesso, deve chegar devagar com muito esforço, mas sem tensões nem obsessão.
Um guerreiro ao olhar para seu passado, percebe que hoje faz coisas, que lhe pareceriam impossíveis há dez anos atrás. Essas coisas em si não mudaram, mas sua concepção de si mudou. O mundo é isso e aquilo, porque falamos conosco dizendo que ele é isso e aquilo. As coisas só são reais depois que resolvemos concordar com sua realidade. O diálogo interno é o que nos prende ao mundo e modificar a concepção do mundo é o ponto nevrálgico da feitiçaria. Parar o diálogo interno é o único meio de conseguir isso. Quando um guerreiro aprende a Pará-lo, tudo se torna possível; os planos mais rebuscados se tornam exeqüíveis e se abre o caminho para todas as experiências fantásticas e sobrenaturais.
Uma das técnicas para se aprender a desligar o diálogo interno é caminhar percorrendo longos trechos, sem focalizar os olhos em coisa alguma. Nada deve ser olhado diretamente; deve-se envesgar ligeiramente os olhos para se obter uma visão periférica de tudo. Conservar os olhos não focalizados logo acima do horizonte, torna possível observar de uma só vez, tudo que está no campo de visão de quase cento e oitenta graus diante dos olhos.
Alívio, refúgio, medo são estados de espírito que aprendemos sem jamais questionar seus valores: isso é escravidão. O caminho do guerreiro traz a liberdade; ela é dispendiosa, mas o preço não é impossível.
Um guerreiro começa com a certeza começa com a certeza de que seu espírito está desequilibrado. Aí vivendo num controle e consciência completos, faz o máximo para conseguir esse equilíbrio. Nada há nesse mundo que um guerreiro não possa enfrentar, o pior já lhe aconteceu, nada tem a perder, pois já se considera morto.
O caminho do conhecimento é assustador, mas se um guerreiro aceita a natureza assustadora do conhecimento cancela o pavor que ele possa inspirar.
Um guerreiro age como se estivesse controlado, mesmo que esteja tremendo por dentro. Agir desse modo desfaz a obsessão. Ele age como se nada tivesse acontecido, porque não acredita em nada e no entanto aceita tudo pelas aparências. Aceita sem aceitar e despreza sem desprezar. Nunca acha que sabe, nem sente que nada aconteceu. Este é o método do guerreiro, é o método correto.
Existem outros três métodos que são maus hábitos, que usamos repetidamente quando nos defrontamos com situações desconhecidas na vida.
Primeiro, podemos não levar em consideração o que está acontecendo ou já aconteceu e sentir que nunca aconteceu. Esse é o método do fanático.
Segundo, podemos aceitar tudo pela aparência e sentir que sabemos o que está se passando. Esse é o método do devoto.
Terceiro, podemos ficar presos a um fato porque não conseguimos despreza-lo, nem conseguimos aceitá-lo totalmente. Esse é o método do tolo.
Os guerreiros não conquistam suas vitórias, batendo com a cabeça de encontro aos muros e sim conquistando os muros. Os guerreiros saltam por cima dos muros; não os destroem.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Com os pés na vida real (filosofía e psicanálise)
Patrícia Pereira
A Filosofia só tem valor se for capaz de transformar a vida real. É o que defende André Martins, professor associado da UFRJ, onde leciona nos departamentos de Filosofia e de Medicina Preventiva. Ele une em seus estudos os pensamentos de Nietzsche, Espinosa e teoria psicanalítica para, entre outras coisas, ajudar as pessoas a entender melhor suas vontades e escolhas. O que há em comum entre os três? O enfoque nos afetos. Tanto Nietzsche quanto Espinosa têm como conceito fundamental de suas filosofias, o afeto. Posição que contrariou os pilares da tradição filosófica e os fez serem vistos como malditos. Por outro lado, ter o afeto em foco é algo que os aproxima da Psicanálise. André Martins, doutor em Filosofia pela Université de Nice (1994) e doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ (2002), se diz antes filósofo, depois psicanalista. Nesta entrevista, ele, que é vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, membro do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e coordenador do Grupo de Pesquisas Spinoza e Nietzsche (SpiN), explica por que acredita que os homens podem ser livres em suas escolhas, desde que estas coincidam com seus afetos.
FILOSOFIA Nietzsche, Espinosa e Psicanálise. Como o senhor chegou a essa união? Como e por que direcionou seus estudos neste sentido?
André Martins Fiz doutorado em Filosofia na França, com o Clément Rosset, que é um grande filósofo e muito irreverente. Cheguei para fazer o doutorado e assistia a todas as aulas dele, que tinham as salas lotadas. Uma das disciplinas foi Teoria Psicanalítica, no curso de Filosofia. Foi aí que comecei a me interessar por Psicanálise, a comprar livros e a ler bastante. Paralelamente a isso, meu interesse sempre foi Nietzsche - também Deleuze e Foucault - e depois Espinosa, que chegou de forma arrasadora na minha vida e me conquistou. São autores que estão pensando o mundo sensível e de alguma forma as reações afetivas. É um tema próximo da Psicanálise. Por me interessar por esses autores, por uma filosofia imanente e não transcendente, por uma filosofia que pensa a vida, acabei me deparando com a questão dos afetos. E, a partir daí, fui também estudar Psicanálise, mas dentro desse percurso individual. Ao chegar ao Brasil, fiz um segundo doutorado em Teoria Psicanalítica e sou membro de sociedades psicanalíticas no Brasil e na França. Aí tudo começou a fazer sentido, a se juntar.
FILOSOFIA Nietzsche e Espinosa foram incompreendidos em vida e tidos como malditos ao longo da história da Filosofia. Além deste perfil em comum, o que mais aproxima esses dois filósofos?
Martins O que os aproxima é o que está na origem do fato de eles terem sido incompreendidos e malditos. As filosofias de um e de outro têm pontos comuns que sempre foram polêmicos, pouco aceitos. O próprio Nietzsche me ajuda a responder a essa pergunta porque, em um cartão-postal que escreveu a um amigo, falou que se reencontra em Espinosa em cinco pontos capitais e também na tendência geral de sua filosofia. Ambos tomam o conhecimento como o mais potente dos afetos. O conhecimento ser visto como um afeto é algo completamente diferente da tradição filosófica. E é dito como sendo o afeto mais potente. O conhecimento, neste caso, tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, é o conhecimento não só da realidade como dos próprios afetos. Se conhecemos a maneira como somos afetados, como funcionamos - nossas reações e motivações afetivas -, esse conhecimento é o que mais tem poder sobre os nossos afetos e, portanto, sobre as nossas ações. A tradição filosófica sempre buscou uma verdade a priori, ou seja, uma verdade em si ou formalmente verdadeira. Tanto Espinosa, no século XVII, quanto Nietzsche, no século XIX, tentam mostrar que uma verdade formal não existe. Segundo eles, nós só existimos no mundo sensível, na realidade, então a verdade consiste em conhecer esse mundo no qual a gente se insere e não conhecer uma verdade que seja formalmente impassível ou imutável. Esse é o grande ponto em comum entre eles, a tendência geral da filosofia dos dois que os distingue de toda a história da Filosofia.
FILOSOFIA E quais são os cinco pontos em comum entre os dois enumerados por Nietzsche?
Martins São eles: a não existência do livre-arbítrio; a não existência do mal - e subentende-se, portanto, que não existe também o bem; a não existência de causas finais, ou seja, de que algo existe no mundo porque tem uma finalidade - por exemplo: Deus criou a fruta para alimentar o homem, ou uma dificuldade para que o homem aprenda a superá-la; a não existência do desinteresse - não existe desinteresse, existem ações interessadas interesseiras e ações interessadas não interesseiras, mas sempre existe o interesse e, por fim, o quinto ponto é a negação da ordem moral do mundo: Nietzsche e Espinosa negavam a existência de um sentido moral intrínseco às próprias coisas, aos acontecimentos, à existência. Acho que Nietzsche foi muito feliz em perceber que esses cinco pontos, que são os pilares da tradição filosófica de toda a história da Filosofia, em particular da Modernidade e do Humanismo, são falhos, não existem, são ficções. Nietzsche foi muito preciso em ver que Espinosa já denunciava esses pontos na aurora da Modernidade.
FILOSOFIA Falamos sobre os pontos em comum. E fazendo o oposto, qual seria o maior ponto de atrito e de divergência entre eles?
Martins Diria que a principal diferença é de foco ou de tonalidade. Nietzsche é extremamente passional no jeito de escrever - na vida pessoal nem tanto, era uma pessoa serena, calma, apaziguadora, mas nos textos é muito passional e provocativo: "sou dinamite", "filosofar com o martelo". Espinosa, por oposição, não só no texto quanto na própria filosofia e, ao que parece, razoavelmente na própria vida pessoal, propõe um controle, um domínio sobre as paixões. Vejo que ambos têm filosofias distintas, porém muito próximas em pontos fundamentais. Nietzsche seria uma versão mais passional, mais apaixonada de um fazer filosófico. Espinosa seria uma versão mais sóbria ou racional desse mesmo fundo filosófico.intensificação das paixões alegres e das alegrias ativas. Quando Nietzsche fala do engajamento apaixonado, ele está pensando no que Espinosa chamaria de "paixões alegres". Mas o foco é diferente, Espinosa não está valorizando as paixões alegres, quer dizer, está, mas sem colocar o foco nelas. O objetivo de Espinosa são os afetos ativos, que estão para além das paixões alegres. Digamos, ter as paixões tristes é negativo para os dois, e aí viriam as paixões alegres e os afetos ativos, as alegrias ativas. Nietzsche não dá ênfase aos afetos ativos, embora eles estejam presentes também na filosofia dele. A ênfase que ele dá é - usando os termos de Espinosa - nas paixões alegres.
Nietzsche está sempre fazendo um elogio do engajamento individual da pessoa naquilo que ela faz. Ele preconiza um envolvimento apaixonado na vida, nas coisas que se faz na vida
FILOSOFIA O que seriam essas paixões alegres e tristes de Espinosa?
Martins Em Espinosa, um afeto alegre, que pode ser passivo - uma paixão alegre - ou ativo - que é sempre alegre -, é o afeto que aumenta a nossa potência de agir, de pensar, de estar no mundo, de existir. Esse é o afeto alegre: o que nos impulsiona, o que nos expande. É parecido com Nietzsche, que vai falar de uma "Vontade de Potência", que é uma vontade de expansão. O afeto triste, que é sempre passivo, ou seja, é sempre uma paixão triste, em Espinosa, é o afeto que nos oprime, que nos deprime, que vai contra a nossa potência de agir. Nietzsche vai falar contra o ressentimento, que é um afeto triste. Vai falar contra a submissão, contra seguir a moral do rebanho, contra fazer como todo mundo, que são afetos tristes. Muito embora o uso conceitual seja diferente, eles têm uma afinidade de compreensão do que são afetos. Basta pensar: em Espinosa, o afeto é um conceito central; em Nietzsche, também; e isso é raríssimo na história da Filosofia, que o conceito central de uma filosofia seja o afeto.
FILOSOFIA Afeto é uma palavra de nosso uso corrente, ligada a carinho. O que seria o afeto em Espinosa?
Martins É próximo de sentimento, mas não é exatamente sentimento. Poderíamos dizer que sentimentos são afetos, mas precisamos entender afeto no sentido mais amplo. Somos afetados sempre e inevitavelmente. E esses afetos nos movem, nos motivam, mesmo que não tenhamos consciência disso. Espinosa nos mostra, bem antes da Psicanálise, que são nossos afetos que nos movem, e que a razão não pode modificá-los, a menos que ela se torne uma razão afetiva. Afeto é a reação inevitável a tudo o que nos impressiona, a tudo o que nos marca, a tudo com o qual interagimos. Sofremos afecções e essas afecções, concomitantemente - ao mesmo tempo e não em um segundo momento -, geram afetos. Afetos resultam das interações, não brotam nunca do nada em nós. Em Nietzsche, afeto, no geral, é sinônimo de paixão. Essa paixão pode ser o que Espinosa chama de uma paixão alegre. Nietzsche não faz essa distinção, mas ele está pensando o afeto próximo de paixão e próximo de pulsão - trieb, no original alemão, o mesmo termo que depois Freud vai usar. Nietzsche pensa afeto como um sinônimo de pulsão - o que é muito próximo da ideia de afeto de Espinosa. Enfim, é diferente, mas eles estão em universos conceituais muito próximos.
FILOSOFIA Falando um pouco de liberdade. Para Nietzsche e Espinosa, os homens não seriam livres em suas decisões, mas determinados. Determinados de que forma ou pelo quê?
Martins Não é bem assim. O homem pode ser livre em suas decisões, o problema é que o julgamento do homem é que não é livre de seus afetos. Para entendermos a posição dos filósofos, que neste ponto é a mesma, precisamos entender qual é a tradição à qual eles estão se opondo. A ideia do livre-arbítrio é de que o pensamento do homem, ou sua razão, existe de modo dissociado do corpo, de suas ações, do contexto cultural, histórico, social e de todas as relações humanas. É como se existisse uma razão pura, sem influências disso tudo - que seria, na tradição filosófica, a alma ou uma faculdade da alma. Ela teria o arbítrio, ou seja, o julgamento; julgaria de uma maneira isenta de tudo o que é da ordem da realidade. Esse livre-arbítrio é que é contestado tanto por Espinosa quanto por Nietzsche. Para eles, o livre-arbítrio não existe, é uma ficção. Por mais que a pessoa tente pensar de modo isento - isento da própria maneira de ver o mundo, da própria história de vida -, não é possível.
Espinosa mostra, antes da Psicanálise, que são nossos afetos que nos movem, e que a razão não pode modificá-los, a menos que se torne uma razão afetiva
FILOSOFIA Então a determinação pelos seus afetos seria por essas influências?
Martins O homem pode fazer escolhas livres. Só que essas escolhas não serão livres dos afetos, elas serão relativamente livres no sentido de que ele pode fazer opções, até mesmo racionalmente, mas se optar por algo que vá contra a natureza dele ou contra seus afetos, não vai adiantar nada, pois os seus afetos é que vão prevalecer. Optar por algo que aja sobre seus afetos, isso é o que ele pode fazer.
FILOSOFIA Mas o homem seria livre para decidir contra os afetos?
Martins Isso é o que a gente faz o tempo todo, não é? Vamos pensar em exemplos concretos: a pessoa quer parar de fumar e não consegue, quer emagrecer e não consegue, quer ser só bonzinho e não consegue. Por quê? Porque ela está na ficção do livre-arbítrio. Em outros termos, Espinosa diz que achamos que a vontade é livre, mas a vontade não é livre. Ela depende do corpo. Vivemos em uma cultura que se autoengana e, neste sentido, a história da Filosofia inteira está errada. Como se fosse possível, eficaz ou vantajoso tomar decisões contrárias ao nosso corpo e aos nossos afetos. Ou, para usar um termo de Espinosa, que é também um termo da Psicanálise, contrário ao nosso desejo. Segundo Espinosa, o desejo é a essência do homem. Então, por exemplo, se quero parar de fumar, o que eu posso fazer racionalmente? Pensar quais são as motivações que me levam a fumar, quais são os afetos que me levam a fumar e aí começar a atacar essas motivações e esses afetos e não simplesmente achar que minha vontade é livre e tentar impor essa vontade contra meu desejo humana. Espinosa e Nietzsche batem nesta tecla o tempo todo: não se pode ir contra a natureza humana. Por mais que se acredite e se iluda de que a vontade é livre, a pessoa não vai conseguir ir contra si mesma. E aí vai gerar o quê? Já misturando com a Psicanálise: vai gerar neurose, depressão, a pessoa vai entrar em crise. Não só em respeito à sexualidade como diversas outras coisas. Se estou sem fazer nada em que me sinta realizado, me expandindo, vou ficar deprimido, abatido. Não adianta uma pessoa que está com uma vida infeliz pensar que precisa ter força de vontade. E aí vêm todos os jargões, tanto da religião quanto da autoajuda, quanto da neurolinguística, de ficar repetindo "eu vou aguentar, eu vou aguentar". Você não está tendo o conhecimento como o mais potente dos afetos. Não está tentando entender o que em você faz que esteja infeliz e o que em você lhe motivaria, lhe deixaria mais realizado.
Tentando resumir: tanto para Espinosa quanto para Nietzsche, o homem pode ser livre em suas escolhas, desde que essa liberdade coincida com o afeto dele ou com o conhecimento dos afetos. Nietzsche não usa esses conceitos, de afetos ativos e passivos, paixões alegres para parar de fumar. É preciso dar uma volta. Espinosa diz que a razão, por mais que conheça uma verdade, não tem nenhum efeito contra um afeto mais forte. É preciso que ela seja afetiva para que possa transformar um afeto. Essa chave muda a história da Filosofia inteira e muda a vida de cada um, no dia a dia, conheça-se Filosofia ou não. Se entendermos que somos seres unos, corpo e alma - Espinosa muda o termo: corpo e mente -, como dois aspectos de uma coisa una que nós somos, então temos de prestar mais atenção em nossos afetos e não ficar dando murro em ponta de faca achando que a vontade pode ser livre ou que o nosso arbítrio pode ser livre. Não vamos conseguir algum efeito positivo impondo contra nós algo que não é possível. Em toda história, o que se fez, por exemplo, em relação à sexualidade? É pecado, tem de coibir, até hoje a igreja católica oprime o desejo sexual. Mas isso é da natureza e tristes, mas diz algo muito próximo. A liberdade em Nietzsche é você coincidir com você mesmo, é desejar o seu destino - fica mais vago, mas vai no mesmo sentido.
FILOSOFIA Tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, a emoção domina a razão? Por isso os dois foram tão malvistos em um mundo dominado pela racionalidade?
Martins Não dá para dizer exatamente que eles propõem que a emoção domine a razão. Na vida real, normalmente a emoção domina a razão. Para Espinosa, é claro que isso é ruim - e isso ajuda a entender a diferença entre os dois. Para ele, a razão tem de dominar. Só que a razão de Espinosa não é a razão da tradição filosófica, é outra razão, é uma razão afetiva. Poderíamos dizer que tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, os afetos dominam a razão. Para Espinosa, a razão deve dominar os afetos passivos, mas a própria razão é um afeto ativo. A razão é um afeto. E, em Nietzsche, a emoção deve dominar a razão, porque ele é um pensador passional. Mas aí entram todos os detalhes do pensamento de Nietzsche em que esse domínio da emoção sobre a razão também se dá junto a um elogio do conhecimento, a um elogio de certa razão. O termo que ele vai usar é de uma Gaia Ciência, de uma razão alegre.
FILOSOFIA Não é uma defesa incondicional dos instintos, de se fazer tudo o que se deseja?
Martins Não é. Nem em Espinosa e nem em Nietzsche. Na tradição filosófica, há uma dicotomia: emoção versus razão. E, de modo geral, permanece no senso comum que Nietzsche - e talvez Espinosa - estaria do lado da emoção contra a razão. Isso é falso, porque eles estão criticando justamente essa dicotomia. Eles estão propondo outra ideia de razão - em Espinosa, uma razão afetiva e, em Nietzsche, uma Gaia Ciência - e outra ideia de emoção, no sentido de uma afetividade que abrange tudo, até a razão. Vai ser um tipo de emoção contra outro tipo de emoção. E o que eles têm como inimigo em comum é a razão tradicional, porque essa razão tradicional é que é fictícia, tanto para Espinosa quanto para Nietzsche. Isso muda o cenário. Eles foram tidos como malditos porque foram mal compreendidos, ou seja, porque se atribuiu a eles um lugar dentro de uma dicotomia que eles criticam. É a partir disso que se considera que tanto um quanto outro, cada um em sua época, propuseram filosofias escandalosas, contra a razão, dentro desta ideia de cada um fazer o que quiser, não existir mais moral. Não existe mesmo, mas existe ética, que é muito melhor. Quer dizer, se não mudamos o quadro conceitual, parece que eles estão propondo algo insustentável, e não é nada disso.
FILOSOFIA Além de filósofo, você é psicanalista. A Filosofia influencia, de alguma forma, seus estudos sobre Psicanálise?
Martins Sou primeiro filósofo e depois psicanalista. Quando vou estudar a Psicanálise, eu, filósofo, que gosto de Nietzsche e Espinosa - ou seja, dois filósofos que pensam o afeto, que pensam o mundo e questões tradicionais da Filosofia com a perspectiva dos afetos - não acredito em dogmas. Não vejo o texto de Freud como se fosse a Bíblia, o Antigo Testamento, e o texto de Lacan como se fosse o Novo Testamento, regidos pelo argumento de autoridade. A Filosofia já passou por isso quando, por exemplo, na Idade Média, os textos de Platão eram incontornáveis e não se podia contestar. Mas houve alguém que contestou, em parte: Aristóteles. É como se Freud fosse Platão e Aristóteles, Lacan. Eu diria que a Psicanálise está teoricamente na Idade Média, quando se prende a fundamentalismos e ortodoxias. Então esse tipo de dogmatismo, com um olhar filosófico, não faz sentido para mim. Por isso valorizo Winnicott, que, a meu ver, é o psicanalista mais aberto teórica e clinicamente. O meu olhar para a Psicanálise é um olhar de autocrítica. Não é um olhar de fora: a Filosofia criticando a Psicanálise. Isso porque eu sou psicanalista também. No outro sentido, a Psicanálise me ajuda a não cair na armadilha de uma Filosofia transcendental, apriorística, ou seja, me ajuda a conseguir ver a Filosofia como algo que está pensando o dia a dia, a realidade, a afetividade, o mundo real, concreto, o mundo sensível. Para mim, ou a Filosofia tem um poder de transformar a vida real ou ela não tem utilidade, a não ser como ferramenta para algo que venha ter algum peso de intervenção na vida. A Filosofia como um saber endógeno, que se retroalimenta e ponto-final, como muitas vezes é vista, para mim não tem valor.
FILOSOFIA Você trabalha com a Filosofia e a Psicanálise na área de Saúde Coletiva, visando a construir uma definição positiva de saúde. De que forma isso se daria? Como Filosofia e Psicanálise podem interferir em Saúde Coletiva?
Martins Oriento dissertações de mestrado e teses de doutorado não só na Filosofia, mas também na Saúde Coletiva da UFRJ. E me dá muito prazer ter orientado trabalhos onde usamos, por exemplo, Espinosa para pensar a questão da obesidade; Deleuze para pensar o alcoolismo entre os trabalhadores da construção civil; Foucault para pensar o psicólogo da Polícia Militar. É um prazer ver o quanto a Filosofia tem a dizer sobre questões práticas do dia a dia da sociedade. E meu trabalho pessoal, na Saúde Coletiva, é a construção de uma definição positiva de saúde. Há uma definição negativa de saúde, que diz: "saúde é a ausência de doença". No meu entender, isso é péssimo. É imaginar - e é, infelizmente, o que vigora - que cuidar da saúde restringe-se a atacar a doença. Uma implicação disso é negligenciar a promoção da saúde e a prevenção que não seja medicamentosa nem cirúrgica. Fortalecer o corpo e o psiquismo de cada um de nós é algo que quase não existe. O médico muitas vezes tem tanto interesse em acabar com a doença que acaba também com o doente. Atacar a doença a qualquer preço pode ser feito em casos extremos, mas tem sido a ordem do dia. Isso gera também, de modo geral, a ideia de que quando se tem uma doença, existe uma peça da máquina do corpo humano que está doente, funcionando mal, então é preciso substituí-la. Não se pensa no corpo humano como um todo. Essa definição negativa de saúde é também um reflexo de uma questão filosófica de se considerar alma e corpo separados, e o corpo como uma máquina.
A Psicanálise me ajuda a não cair na armadilha de uma Filosofia transcendental, a conseguir ver a Filosofia como algo que está pensando o dia a dia
FILOSOFIA Além de ser autor do livro Pulsão de morte? (Ed. UFRJ, 2009) e organizador de O mais potente dos afetos (Martins Fontes, 2009), você está para lançar o livro As ilusões do eu. Já tem data prevista?
Martins Martins Deve ser em maio deste ano. Foi um livro que organizei, com outros dois professores da USP, e que reúne 26 conferências do Segundo Congresso Internacional Espinosa e Nietzsche, realizado em São Paulo, no final de 2009. O tema é a crise da Modernidade e a crítica à ideia de sujeito - sujeito do livre-arbítrio, que determina suas ações a partir de sua própria razão ou da alma. Na apresentação, colocamos como epígrafe uma frase de Freud: "O eu não é mais senhor em sua própria casa". É uma frase que faz ligação com o título do livro e mostra o quanto Espinosa e Nietzsche estão na base não só da Psicanálise, como desse pensamento da afetividade inconsciente. O que eles estão dizendo, em outras palavras, é que nós somos motivados, inconscientemente, por nossos afetos.
domingo, 11 de abril de 2010
A desanimalização do consumo humano: desafios da ética vegana
Há milênios, humanos possuem animais, usam, escravizam e matam animais para atender a qualquer propósito seu. Há milênios, os humanos inventaram uma ética para justificar a animalização de seus hábitos e servir igualmente a seus propósitos, a ética antropocêntrica. Humanos inventaram não apenas a escravização de animais, alegando que eles são inferiores. Eles inventaram um modo de justificar suas práticas escravizadoras, ao argumentarem que seres inferiores a eles nascem para servi-los, e, por isso, são objetos passíveis de apropriação.
Chegou a hora de redefinir a concepção moral antropocêntrica, colocando-a em seu devido lugar: ela deve limitar-se a conceber os humanos como fonte da moralidade, definindo o fim último da ética como sendo o bem que os humanos podem fazer ao desanimalizarem seu consumo.
Por animalização da alimentação, vestuário, lazer, ciência e linguagem humanas, entendo toda prática levada a efeito às custas do bem próprio, da liberdade e da vida de animais não-humanos e humanos. A ética precisa partir do valor maior impregnado à existência dos seres vivos: poder viver em liberdade.
Na perspectiva ética vegana, humanos perdem o estatuto de proprietários e beneficiários da vida alheia. Reconhecer direitos fundamentais à vida e ao bem próprio de cada ser vivo é o modo razoável de resguardar a singularidade do bem próprio à vida deles, sendo indiferente ao agente moral a espécie à qual o animal pertence. Assumindo uma posição no âmbito do movimento vegano, o indivíduo orienta-se por um sentido positivo de expressão de si, compartilhado pela comunidade formada por outros que também assumem a perspectiva da ética animal não-antropocêntrica como eixo existencial de seu projeto de vida. Olhar os interesses animais com o mesmo respeito com que se olham os interesses humanos exige admitir para si mesmo e afirmar publicamente que a justiça genuína não será alcançada enquanto permanecer amordaçada e algemada por linhas divisórias tirânicas que desqualificam o valor inerente à vida de espécies diferentes da nossa.
A convicção que ilumina a atitude vegana é a de que não se pode ser ético e ao mesmo tempo negar que o bem próprio de outros seres vivos importa para eles, tanto quanto importa o nosso, para nós. Pensar com essa clareza conceitual motiva a agir em prol da construção de um modo de vida que afirma os direitos animais, ecossistêmicos e humanos, sem que, para cada um desses âmbitos tenha-se que forjar uma ética antagonista às demais. Nossa moralidade tem sido pautada até o presente momento sobre uma espécie de tricotomia moral: ela nos ensina a distinguir e discriminar interesses animais e de ecossistemas naturais, ao priorizar e privilegiar os interesses humanos, como se os humanos não fossem constituídos de tecidos, necessidades orgânicas e interesses naturais da mesma ordem em que o são os outros animais.
Ainda que, por um lado, a atitude vegana requeira um conceito claro da finalidade para a qual a ação é orientada, qual seja, resguardar o bem da vida, para todo indivíduo que a vive, sem especismos eletivos, tal radicalidade não inclui a proposta de que o veganismo deva impor-se como um modo de vida aos demais. Cada um de nós tornou-se vegano motivado por ideias, convicções e exemplos recebidos, sem imposição, do legado social e pessoal contra hegemônico. Em vez do padrão autoritário e conservador que tem caracterizado a moralidade até os dias de hoje, o veganismo adota um padrão não impositivo nem proibitivo, embora sua atitude siga com firmeza e coerência a prescrição inerente ao princípio ético fundamental da não-violência contra quaisquer indivíduos vivos.
Reconhecer, à própria biografia, que o uso de produtos de origem animal está definitivamente interditado, é uma conclusão natural para quem não admite que o bem-estar, a felicidade, o prazer ou qualquer outro benefício pessoal na vida, sejam alcançados à custa de dor, sofrimento, privação de liberdade e morte de outros, não importando o formato no qual esse outro aparece na esteira da vida.
Antes de seguir simplesmente a corrente vegana, cada indivíduo precisa entender o propósito dessa escolha, seu desdobramento e consequências. Sem compreender que o veganismo visa exclusivamente a libertação animal de todas as formas de exploração, uso, abuso e assassinato praticadas por humanos, não há uma atitude vegana genuína. Mas, achar que essa conquista será obtida de mão-beijada fere a intuição. A cultura na qual veganos têm que viver é absolutamente animalizada, no sentido exposto acima.
A decisão de tornar-se vegana ou vegano implica disponibilizar-se para enfrentar a própria formatação moral e os embates inevitáveis no âmbito da família, da escola, da atividade profissional e das demais práticas sociais, incluindo nelas o hábito de sair com amigos para comer fora, comprar presentes, organizar festas de final de ano, de aniversário, divertir-se e até mesmo escolher uma profissão.
Entender a natureza do ideal vegano como prescritiva, no sentido ético de ordenar as próprias ações à luz de um princípio moral válido no âmbito da própria biografia, mas não impositiva nem proibitiva à biografia alheia, e compreender que essa natureza deve nortear as ações educativas que visam orientar os demais para a tomada de decisão de tornar-se vegana ou vegano, é um desafio para todos os que ora se reúnem para fundar a Sociedade Vegana. A prescrição maior à qual todos estamos submetidos, a partir da qual as demais serão acatadas, é estabelecida, na Sociedade Vegana, não por fulano ou sicrano, pois isso caracterizaria autoritarismo e impositivismo, pelo princípio ético universal da não-violência, acompanhado da regra da coerência moral pessoal com tal princípio, e da disposição de fazer com que ele ilumine decisões pessoais e grupais a partir desse momento.
Para qualquer ser vivo, a maior violência que se pode cometer é tirar-lhe a liberdade de mover-se para prover-se seguindo o modo que melhor se adequa ao alcance do bem que lhe é próprio. Por isso, a defesa dos direitos animais passa inevitavelmente pela libertação deles de todas as formas de privação da liberdade à qual estão condenados no sistema que os torna objetos de propriedade humana. Não são os veganos quem proíbem outros de usarem animais como se fossem coisas descartáveis. Quem o faz é o princípio ético que todo humano admite como válido quando seu interesse em não ser sequestrado, usado, explorado e assassinado está em jogo. Por submeter-se ao princípio ético, o movimento vegano admite que tal princípio prescreve certas ações, e proscreve outras.
Ao submeter-se a um princípio ético de tal envergadura, o vegano sabe que deve manter-se coerente. Não pode levantar o princípio como escudo para defender-se da violência de outros humanos contra si, e baixá-lo para melhor poder praticar a violência contra outros animais.
Se o ideal normativo maior que prescreve nossa atitude em relação a animais de outras espécies não admite a propriedade sobre sua vida, seu organismo ou quaisquer partes e elementos extraídos e derivados deles, então ele prescreve absolutamente o princípio da não-violência contra eles.
A escravização de humanos foi abominada há quase dois séculos. Para fazer frente ao sistema das práticas institucionais que a fomentava, foi necessário um movimento político abolicionista. A violência da escravização de animais para fins humanos requer um movimento semelhante àquele, de envergadura incalculavelmente maior, pelo número de implicados nela. Semelhante, porque, nesse caso, as vítimas da apropriação não podem libertar-se, não podem juntar forças ou organizar-se para enfrentar a instituição da escravidão. Incalculavelmente maior, pois, no caso da abolição do uso de animais, estamos diante de algo espantosamente disseminado em todas as mentes humanas. O uso de animais não-humanos para atender interesses, necessidades e negócios humanos perpassa todos os âmbitos da produção e consumo de mercadorias e serviços.
A luta vegana não será travada contra inimigos externos, os tradicionais representantes do sistema institucionalizado de escravização de animais, interessados nos lucros que ela representa. A desanimalização de nosso consumo terá que enfrentar a matriz cognitiva e moral instalada em nossas próprias mentes. Formadores de opinião e educadores veganos devem estar cientes disso, e aprender a superar tal matriz cognitiva e moral em si mesmos, desdobrando as pregas nas quais a animalização dos benefícios obtidos pelos humanos tornou-se natural. Ao mesmo tempo, devem indicar caminhos para que outros também possam se desfazer desses hábitos arraigados. Produzir meios para que humanos mal-acostumados à escravização dos animais possam entender o erro moral em se viver às custas deles e tomar a decisão de abolirem de suas vidas os hábitos de consumo que fomentam tais práticas é tarefa central para os que ingressarem na Sociedade Vegana.
O princípio da não-violência prescreve a abolição de todas as formas de destruição praticadas contra seres vivos: mental, verbal e institucional; em outras palavras, a abolição de toda emoção negativa que envolva agressão contra qualquer ser capaz de sentir dor e sofrer; a abolição do uso de argumentos que justificam causar dor e sofrimento a qualquer ser senciente para servir a qualquer propósito humano; a abolição de todas as práticas individuais e institucionais de inflição de dor e sofrimento a esses seres, incluídos os da espécie humana. Ser vegano, portanto, implica em enfrentar o desafio de fazer uma faxina geral e profunda nos próprios conceitos, em erradicar qualquer emoção voltada à destruição dos interesses ou da vida de qualquer animal senciente, e a desassinar o contrato em vigor que nos autorizou moralmente a animalizar, isto é, a fazer uso dos animais, para quaisquer propósitos humanos.
Desdobrar as pregas da moralidade na qual estamos plissados requer coragem e persistência. Quando julgamos ter alcançado um patamar razoável de abolição de produtos de origem animal que antes compunham a cesta básica de nossa aquisição diária, somos confrontados com o fato de que quase todos os produtos da indústria química usados para confeccionar alimentos processados, tecidos, calçados sintéticos e outros itens do uso diário contém ingredientes produzidos com componentes derivados ou extraídos de animais.
A tarefa de desdobrar continuamente as pregas nas quais esconderam de nós a imagem de nossa moralidade animalizada é árdua. Ela representa um embate mental, emocional, espiritual, político, econômico e moral com os padrões ou conceitos forjados em nossa própria mente. A natureza positiva do ideal vegano pode ser melhor expressada na orientação constante que oferecemos às pessoas, na investigação ininterrupta que fazemos dos labirintos pelos quais se espalham em nossa mente conceitos e valores que ora nos dispomos a desanimalizar.
O que melhor um vegano pode fazer para mudar a moralidade vigente, é agir de forma firme e serena nessa busca. O exemplo de atitude vegana na própria biografia é o melhor legado que se pode deixar aos que nos rodeiam e aos que virão em seguida com tal propósito. Impor, ou proibir, não resultará em benefício para os animais que ora se encontram à espera da libertação. Argumentar com firmeza e lucidez, mantendo o princípio da não-violência e o propósito de abolir todo especismo eletivo como metas a serem alcançadas, fazem parte do caráter vegano. Radicalidade, nesse caso, não pode ser confundida com autoritarismo ou impositivismo.
Mas, para que esses três conceitos não sejam confundidos é preciso manter clara a linha divisória que separa as ações morais voltadas à defesa dos animais, impedindo, especismos eletivos, por exemplo, que certos tipos de animais recebam consideração, ao mesmo tempo em que se omite que outros da mesma espécie, mas de gênero distinto continuem a ser escravizados para atender aos negócios humanos, como é o caso de defender a abstenção da ingestão de carnes e silenciar sobre a ingestão de laticínios.
Pode intrigar a tese que defende a natureza prescritiva da ética vegana sem defender que ela seja impositiva ou proibitiva. Crer que prescrições, e não imposições e proibições, sejam o melhor caminho para uma educação moral genuína, produz certa ansiedade. Quem proíbe os humanos de fazerem certas coisas, ou impõe a eles rever os conceitos sobre os quais assentam sua moralidade, não são os veganos, é o princípio ético da não-violência, do respeito pela autonomia dos seres sujeitos de suas vidas, de quem jamais deveríamos ter tirado esse estatuto, em outras palavras, a quem jamais deveríamos ter escravizado.
Ainda que precisemos ser incisivos em nossos argumentos a favor de práticas coerentes para a abolição do uso de animais em quaisquer itens do consumo diário, não precisamos ser autoritários. A argumentação coerente e consistente tem sido acusada de, ou confundida com, autoritarismo. Cai-se, assim, no relativismo moral sob o qual padecem todas as espécies de seres vivos. Confunde-se permissividade com não-autoritarismo. Nessa lógica, o valor da vida dos animais torna-se relativo ao padrão dos interesses e negócios humanos que sofrem danos caso seja abolida a escravização deles. Não ser autoritário não é o mesmo que ser permissivo. Não se admite na própria biografia certos hábitos de consumo. Argumenta-se em público para fundamentar a escolha pessoal. Sugerem-se práticas substitutivas para ajudar outros indivíduos ou grupos a erradicarem o uso desses produtos e serviços. Não se faz as coisas pela metade. Se comer um certo tipo de alimento implica em causar dor e sofrimento aos animais, usados para extração da matéria desse alimento, e se isso não pode ser moralmente defensável, então, pela mesma razão, não é defensável comer qualquer outro tipo de alimento que tenha semelhante origem.
Ao prescrever uma atitude ou ação, o sujeito que o faz admite em si mesmo a capacidade racional. Acatar uma prescrição ética implica em admitir um princípio como universalmente válido, ainda que o modo prático pelo qual esse princípio venha a ser seguido possa variar de cultura para cultura ou de época para época. Admitindo sua própria racionalidade, isto é, admitindo que tem liberdade e inteligência para compreender, reconhecer e seguir uma norma moral, por reconhecê-la como válida, o sujeito imediatamente admite que o mesmo deve valer para os demais que o rodeiam. Prescrever o ideal vegano, nesse sentido, implica em admitir que cada um, munido das melhores informações e com domínio da perspectiva ética animalista, pode chegar à conclusão de que os animais não foram criados para atender aos caprichos e negócios humanos, e sim para viverem espécies de vida que têm singularidade em suas semelhanças e diferenças quando comparada às outras, tanto quanto a tem nossa própria vida.
Quando entendemos racionalmente o por quê de algo ser certo ou errado, queremos que os demais seres racionais imediatamente também o entendam. Mas, a construção da natureza ética nos humanos não se dá num passe de mágica. Mesmo quando temos clareza ética sobre uma série de questões morais, ainda assim relutamos em seguir aquilo que nossa razão nos dá por certo ou verdadeiro. A teia na qual nos enredamos, ao forjarmos o modo de vida antropocêntrico e hostil aos interesses de outros animais, coloca-os na condição de objetos de propriedade. Abrir mão da condição de proprietário e senhor requer força, coragem e desprendimento. Esse é o modo da libertação humana.
O modo de vida vegano precisa ser seguido com plena consciência de que estamos atados à mesma teia na qual os conceitos e valores que desprezam, hostilizam e destruem a liberdade, a autonomia, o bem próprio e a vida dos animais são mantidos por todos nós. O veganismo requer paciência e lucidez, mas, sobretudo, coragem para o enfrentamento. Não para confrontar inimigos externos, mas para enfrentar o próprio padrão mal-acostumado de usar animais para atender às necessidades humanas, não importa se triviais ou cruciais.
Para ser vegano sem ser impositivo, há que fomentar virtudes esquecidas nos tempos atuais. Uma delas é o senso de justiça para além da barreira especista e sexista antropocêntrica. Com tal virtude chegamos ao respeito pelos interesses singulares de seres de outras espécies, e a eles concedemos finalmente a atenção amorosa e a compaixão éticas, requeridas dos defensores da libertação animal que atendem ao que o princípio da não-violência racionalmente prescreve. Sem aquelas virtudes a energia se esvai e o ativismo político em defesa dos direitos animais acaba por não trazer no curto prazo os resultados ansiados.
A par com a virtude no plano individual, os veganos precisam aprender a conviver com os demais, nem sempre antenados na mesma frequência mental e emocional deles. Cada vegano compõe um mosaico de valores e interesses com personalidade única, que encontra um elo comum, o da defesa dos direitos animais e da abolição de todas as formas de sua exploração e morte. Para além da afinidade ética, veganos cultivam também outros interesses. O veganismo não configura, assim, uma ortodoxia existencial. Por isso, les gôuts des autres (o gosto dos outros) e suas preferências precisam ser reconhecidos. Fingir que não temos idiossincrasias atrapalha nossa comunicação e prejudica o vigor que nosso objeto comum, a luta pela abolição de todas as formas de escravização de animais de quaisquer espécies, requer.
A vida nasce livre. Em qualquer que seja seu design, um direito fundamental lhe assiste: o de prover-se nos moldes específicos, orientada pela mente particular que tal modo cria. Não importa o formato no qual o indivíduo nasce. A aparência pode ter muito peso para uma estética especista, para uma moral especista que não reconhece valor a não ser no que tem semelhança conosco, mas não tem peso algum para a ética animalista biocêntrica, pois essa tira o agente moral do centro das atenções. Em seu lugar coloca aqueles que sofrem os desmandos do domínio humano tirânico. Esses são o fim último para o qual a ação moral deve tender.
Os animais não são objetos de propriedade, embora por milênios tenham sido tratados e definidos como tais. Isso se deve ao fato de que, quem os citou pela primeira vez na história como objetos de propriedade, existindo para atender aos negócios, interesses e necessidades humanas (Código de Hamurabi e as Leis de Eshnuna), não encontrou oposição alguma à ideia. De algum modo, os que estavam enredados na teia do poder econômico que o uso de animais permitia erigir, eram os mais interessados em desqualificar o valor inerente à vida de animais e de humanos escravizados. Humanos destituídos de propriedade, e, portanto, do poder que ela confere, estavam e ainda estão na exata condição das demais espécies animais escravizadas. À esses a palavra ou a expressão de sua forma específica de viver não é concedida. Deles, toda a liberdade foi tirada.
Hoje, a história mostra outra face. Já há quem se oponha frontalmente contra o uso de animais, mesmo sabendo que tal uso não será extinto do dia para a noite, de forma mágica, sem requerer trabalho e dedicação dos que a ele se opõem. Os que se posicionam e expressam de forma vegana não estão mais na condição de escravos, embora também não estejam na de senhores. Abdicar do poder tirânico exercido por milênios sobre os corpos, a sexualidade e a vida alheia, é a forma de libertação que os veganos abraçam.
Cabe justamente aos que não ocupam nem a posição de senhores, nem a de objetos da propriedade, provar que é possível abdicar das práticas institucionalizadas de escravização sexual dos animais não-humanos e viver dignamente a vida de um humano. Não esperemos que os animais nos provem isso, nem aguardemos que seus abusadores sexuais o reconheçam. Isso seria o mesmo que esperar que perdessem o gosto de capitalizar lucros animalizados. Somos nós, cidadãs e cidadãos livres da propriedade sobre a vida e a sexualidade de outros seres vivos, que devemos produzir a desanimalização das práticas e negócios humanos.
O projeto de criar uma cultura não animalizada, livre do emprego de animais vivos ou mortos, e sem a dependência de derivados de seus corpos, vivos e mortos, enfrenta o desafio de abolir a produção industrializada de animais para consumo humano, experimentos, lazer e suprimentos. A objetificação de animais só é possível pela dominação sexual que os humanos exercem sobre eles, em outras palavras, pela mecanização do processo reprodutivo.
A natureza reprodutiva de bovinos, suínos, avinos, caprinos e equinos não permite sua reprodução em números que batem recordes em relação a toda reprodução animal conhecida ao redor do planeta. Somente para a exploração da indústria de laticínios, os Estados Unidos e o Brasil contabilizam juntos uma população de aproximadamente 500 milhões de vacas, escravas sexuais, inseminadas mecanicamente ao longo dos 6 a 8 anos de gestação, parto e lactação aos quais são condenadas até exaurirem. Destino melhor não é garantido às galinhas exploradas sexualmente pela indústria de ovos. Ao cabo de 4 anos estão esgotadas. Tanto as galinhas quanto as vacas, exploradas sexualmente pela indústria ovo-lacto, acabam nos matadouros. Não se pode adotar o modo de vida vegano e ao mesmo tempo ignorar a escravização sexual de algumas espécies animais, mantendo-se o especismo eletivo sexista, enquanto se condena a escravização de outras.
A abolição da escravização animal passa inevitavelmente pela abolição das práticas de escravização sexual animal. Não havendo reprodução mecanizada, não há como forçar a nascerem os bilhões de seres produzidos pela indústria de carne, leite e ovos.
O projeto de vida vegano visa ensinar ao ser humano a prover-se de modo não-animalizado, quer dizer, a obter benefícios em sua vida, tais quais saúde, bem-estar e realização profissional, sem que isso represente malefício para os animais. Esse é um desafio à inteligência humana. Enfrentando-o, ampliamos nossa criatividade. É preciso inventar modos veganos de comer, vestir-se, manter-se saudável, curar doenças, divertir-se e processar itens sem componentes derivados de animais.
Se há humanos dispostos a abolirem o consumo de todo e qualquer uso de animais, já não há um poder absoluto, hegemônico e inquestionável de propriedade sobre eles. Embora ainda sejam poucos os humanos que abdicam de usar animais e produtos derivados deles, esses poucos já marcam sua presença no mundo. Formamos uma Sociedade Vegana, uma comunidade dos que traçam sua biografia em torno do eixo da libertação dos animais e da defesa deles como sujeitos de direitos fundamentais, daqueles direitos vinculados à vida, à liberdade e à condição de vulnerabilidade na busca do próprio bem a seu próprio modo.
Se tínhamos algo a que se podia denominar “movimento vegano”, embora não houvesse sido organizado, agora juntamos os projetos e experiências individuais e formamos um leque de ações destinadas à redefinição dos padrões morais nos quais todos fomos formatados. O movimento vegano é, nesse sentido, um movimento ético, político e cultural de proposição e construção de uma cultura moral na qual os animais não serão mais considerados objetos de propriedade, mas, sujeitos de sua vida (Tom Regan). Na condição de sujeitos, cabe a eles direitos fundamentais, tais quais os atribuídos a qualquer humano: o direito à vida, o direito à não privação da liberdade, o direito à reprodução, o direito ao movimento necessário para o provimento nos padrões individuais e próprios de cada espécie. A privação, eticamente injustificável, de qualquer desses direitos, viola a condição de sujeitos de suas vidas, tão inerente à vida animal quanto o é à humana.
Isto posto, resta lembrar que a jornada vegana mal começou, se contamos a rede quase infinita de práticas institucionalizadas de exploração dos tecidos animais para fabrico de itens do consumo humano. Até aqui fizemos o que estava ao nosso alcance, cada um a seu modo, para difundir a ideia de que algo precisa ser revisto no que diz respeito ao estatuto de objetos de propriedade ao qual animais não-humanos estão condenados.
Temos nos abstido de comer alimentos animalizados (industrializados a partir de matéria de origem animal), de usar roupas e acessórios animalizados (fabricados a partir de matéria prima de origem animal), de comprar produtos de higiene pessoal e de limpeza animalizados (compostos a partir de derivados de origem animal e testados em animais), de visitar espetáculos animalizados (montados usando animais como figurantes), de frequentar espaços animalizados (atividades que divertem humanos às custas do sofrimento dos animais). Embora cada um de nós tenha feito tudo isso, ou um pouco disso tudo, individualmente, ainda não nos juntamos para começar a fazer as mesmas coisas de modo coletivo, isto é, político.
Estamos criando nesse momento uma nova cultura. Ao fazermos as coisas esclarecidos na presença uns dos outros, o fazemos com mais poder de disseminação através dos meios de comunicação de massa. Mas, continua a ser essencial para a manutenção dessa energia, fazer tudo visando abolir a escravização dos animais, e conquistar as pessoas para fazerem parte desse projeto ético, cada. Conforme dito acima, o movimento vegano no Brasil dá agora seu primeiro passo, um passo que vai além da difusão do vegetarianismo restrito à questão alimentar.
A partir desse momento, estamos juntos no projeto de remover da consciência humana todo e qualquer traço antropocêntrico que evoque animais como objetos de propriedade e humanos como seus senhores. Tirando-nos do lugar de senhores, tiramos os animais do lugar que os torna vulneráveis à hostilidade, desprezo e destruição, nos moldes do padrão cultural e moral animalizado.
Desafios do modo de vida vegano
1. A paz e não-violência para os animais é o objetivo final buscado pelo vegano e vegana. Qualquer benefício pessoal que possa resultar dessa nova forma de viver é consequência da atitude vegana, não sua finalidade.
2. A justiça social e ambiental são meios para que se alcance a paz e não-violência para todos os seres vivos. A defesa da natureza e sua preservação implica no cuidado atencioso de todas as formas de vida, e na abstenção de tudo o que implica escravização de animais.
3. Os direitos fundamentais animais precisam ser defendidos com a mesma tenacidade com a qual se defendem os humanos.
4. A saúde humana precisa ser assegurada sem a exploração de animais e sua submissão a experimentos.
5. A higiene, limpeza e beleza humanas não podem ser obtidas às custas da vida, do bem-estar e da desfiguração de animais.
6. A pele e a preservação da intimidade do corpo humano não devem ser protegidas às custas da tortura e morte de quaisquer animais.
7. Os nutrientes para o organismo humano devem ser assegurados por alimentos estritamente vegetais, descartando-se a hipótese de usar animais para prover matéria alimentar humana.
8. Da mente humana devem-se erradicar as ideias, conceitos e argumentos que justificam e fomentam o uso de animais. Se não se usa matéria animal para comer e vestir, também não se a usa para falar.
9. Os produtos à venda no mercado mundial devem ser desmontados em sua composição, para que se possa ter ciência dos ingredientes que compõem a alimentação, o vestuário, adornos, cosméticos, material de limpeza, higiene, e todos os produtos da indústria química, das tintas aos componentes high tech, do lazer aos esportes.
10. Aos jovens se deve dizer a verdade sobre a exploração e escravização dos animais. Dos mais velhos se deve cobrar a indiferença em relação ao fato de terem se deixado levar pela propaganda no que diz respeito à melhor forma de prover as necessidades da família.
11. À tradição alimentar e moral animalizada devemos dar um adeus. Desassinar o contrato de expropriação da vida animal é nosso desafio.
12. Dos governantes não há o que esperar na defesa dos direitos fundamentais dos animais, pois a maior parte deles é eleita pelo agronegócio. Via de regra, todo governo é movido pelo capital. Quando se trata de atender à vida em desgraça, especialmente se a desgraça afeta milhões de indivíduos, os governos não sabem o que fazer. Isso vale para a desgraça dos milhões de humanos abatidos por forças às quais não podem fazer frente, tanto quanto para a de bilhões de animais abatidos por forças igualmente avassaladoras.
13. Para tornar-se vegano num mundo animalizado são necessários todos os anos restantes de nossas vidas. Quando nos damos conta de que algum produto ou serviço é oferecido às custas da escravização ou morte de animais, tal produto ou serviço precisa ser dispensado para sempre.
14. O dever positivo direto de respeito aos direitos animais não nos autoriza a negociar unilateralmente nosso padrão de vida contra o direito deles de terem sua vida boa.
15. Ser vegano não é algo estático, de fato não é sequer um estado de ser. É um movimento contínuo, uma luta contínua, não contra alvos externos, mas contra alvos internos. É uma maneira de passar a limpo os arquivos mentais que nos conduzem intuitivamente em nossas escolhas diárias. Ser vegano implica em abrir mão das intuições morais herdadas da tradição e pôr no lugar delas um princípio ético do qual não se abre mão na hora de comer, de ir para a cama, de divertir-se e de instruir-se.
16. Surpresas estão reservadas para os que se tornam veganos. Por detrás de cada dobra de tecido alimentar ou do vestuário, de cada item ou componente dos objetos de uso diário esconde-se a história da exploração, sofrimento e morte de animais não-humanos. Ser vegano é ter disposição para examinar tais pregas e alisá-las uma a uma. Enquanto já nos despregamos de dez ou quinze itens que antes constituíam nosso consumo diário, há quem sequer tenha se despregado de um ou dois deles, carne e laticínios, por exemplo.
17. Vivendo no mesmo plano terrestre dos outros humanos e tendo sido formatados na mesma matriz cognitiva e moral deles, precisamos aprender a olhar para o que eles ainda não fazem, como se fôssemos nós quem ainda não houvéssemos feito coisa alguma. Em vez de apontar para o outro, precisamos apontar para nossas práticas. Se somos coerentes, outras pessoas farão dela um espelho. Se fracassamos, quem mais tem a perder com nosso fracasso são os animais. É preciso abolir a ética animalizada antropocêntrica e em seu lugar construir um modo de vida com base numa ética genuinamente animalista.
sonia.felipe@sociedadevegana.org Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Doutora em Teoria Política e Filosofia Moral, pela Universidade deKonstanz, Alemanha (1991). Co-fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993). Ex-voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1997-2000). Autora dos livros, "Ética e Experimentação Animal - fundamentos abolicionistas" (Edufsc, 2006); "Por uma questão de princípios" (Boiteux, 2003). Co-autora de "A violência das mortes por decreto" (Edufsc, 1998), "O corpo violentado" (Edufsc, 1998),"Justiça como Eqüidade" (Insular, 1998, esgotado). Colaboradora nas coletâneas, "Instrumento Animal" (Canal 6, 2007), "Éticas e políticas ambientais" (Lisboa, 2004), "O utilitarismo em foco" (Edufsc, 2007), "Filosofia e Direitos Humanos" (Editora UFC, 2006), "Tendências da ética contemporânea" (Vozes, 2000). Autora de dezenas de artigos editados nos sítios: http://www.svb.org.br/; http://www.pensataanimal.net/; e na Revista Ethic@ (http://www.cfh.ufsc.br/ethic@/). Coordena o Laboratório de Ética Prática, do Departamento de Filosofia da UFSC, é professora e pesquisadora do Programa de graduação Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da UFSC. Membro Permanente do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, Lisboa. Coordena o Projeto de pesquisa: Feminismo ecoanimalista: contribuições para a superação da violência e discriminação especistas, revisando a literatura sobre defesa de animais e ecossistemas produzida por mulheres (Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, UFSC, 2009-2011).
segunda-feira, 6 de julho de 2009
O valor é o homem
RESUMO
Leia o artigo completo aqui
terça-feira, 23 de junho de 2009
O meu Rorty essencial para “Psi”
1. Introdução
Richard Rorty nasceu em Nova York em 1930 e faleceu recentemente, em 2007. Sua obra é essencialmente filosófica. Sua formação foi mais em história da filosofia que em filosofia analítica. A formação em filosofia analítica foi posterior, já como professor. Quando publicou A Filosofia e o espelho da natureza (1979), após vários “papers” com relativo êxito e tendo sido o organizador da coleção denominada de Linguistic Turn, ele foi visto ao menos de duas maneiras pelos críticos, na Europa e nos Estados Unidos.
Na Europa, no meio filosófico, ele apareceu como “um filósofo da tradição analítica que estaria rompendo com essa tradição”, mas que, enfim, ainda não teria voltado seus olhos para o que seria o caminho correto – o da “confiança na razão”. Habermas o tomou assim em um primeiro momento.
Nos Estados Unidos, não no meio filosófico (e até mesmo neste meio (!)), Rorty foi visto, no início, como um filósofo que estava fazendo ressurgir o pragmatismo, mas renegando o que Dewey teria de bom, pois estaria cedendo “às loucuras pós-modernas de europeus” ou de “pessoas dos departamentos de letras”.
Ao final da vida essas críticas tinham ficado no passado. Habermas se tornou seu amigo e, de certo modo, alguém que modificou sua própria filosofia pelo diálogo com Rorty. Derrida ganhou uma vida nova na América por conta da leitura de Rorty. A filosofia pragmatista voltou a ser lida no mundo por esforço e genialidade de Rorty.
Sua doutrina foi original e bela e pode ser colocada em torno de três idéias: 1) não é a filosofia que fundamenta a democracia, mas é esta que possibilita a filosofia; 2) se cuidarmos da liberdade, a verdade cuidará de si mesma; 3) se pudermos fazer filosofia, que ela seja para nos fazer criar algo novo de modo que possamos ser no futuro “versões melhores de nós mesmos“, antes que uma disciplina presa a coisas como “quem somos?”.
A primeira questão nos leva a discussões entre metafísica e filosofia social. A segunda nos leva às questões sociais e políticas, mas permite vermos o tema da verdade que é inerente à metafísica, epistemologia e lógica, conforme o que queremos enfocar nesse tema. A terceira questão é a mais útil para o “campo psi”, e é nessa área que Rorty mostra sua modificação da noção de subjetividade. É segundo esta terceira linha que temos o leito do artigo que segue.
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* PGJr é filósofo
segunda-feira, 30 de março de 2009
“Conte-me sua história”
reflexões sobre o método de História de Vida
Carolyne Reis-Barros,
Maria Luísa Magalhães Nogueira,
Vanessa Andrade de Barros
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil
Resumo
O presente artigo propõe-se a descrever e situar o método de Historia de Vida dentro da ciência destacando suas características singulares. O método de Historia de Vida se insere dentro de metodologias qualitativas (Abordagens Biográficas) que surge com a Escola de Chicago. O método de Historia de Vida objetiva apreender as articulações entre a historia individual e a historia coletiva, uma ponte entre a trajetória individual e a trajetória social. Discutimos também o vinculo entre pesquisador e sujeito, dimensão priorizada no método de historia de vida. Essa dimensão não invalida o método, nem tampouco o classifica fora de métodos científicos. Dessa maneira o método de historia de vida pode ser classificado como um método cientifico, com a mesma validade e eficiência de outros métodos, sendo que o compromisso maior do pesquisador é com a realidade a ser compreendida.
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